Criados por amor e para amar…
O regresso às origens, à palavra mais fundamental e mais universal do Evangelho, a da nossa filiação e fraternidade cristã, constitui um desafio para a espiritualidade eclesial de hoje e de sempre. Para Teresa de Lisieux a “infância espiritual é uma realidade evangélica” que nos dá uma capacidade de compreender que somos “filhos e filhas de Deus e a resposta que nos orienta à fraternidade”.
Teresa do Menino Jesus insiste sobre a urgência de nos reconhecermos filhos de um Pai dos Céus com entranhas de mãe e mostra como a orfandade fragiliza e destrói, ao passo que a aceitação de abandonar-se como uma criancinha, cheia de confiança, nas mãos do Pai nos eleva humanamente. A integração desta dimensão filial na vida interior da parte de Teresa do Menino Jesus leva-a a manifestar-se exteriormente com uma “simplicidade heróica que cumula, recapitula, integra e transmite o único essencial e necessário, o amor de Deus transcendente e pai (…)”
O essencial do amor de Deus como nos conta Teresa de Lisieux é “o essencial da mensagem cristã: que Deus é amor e que se entrega gratuitamente aos evangelicamente pobres (…) que apenas nos pede um abandono amoroso à sua graça salvadora”.
De igual modo, esse Amor fá-la-ia voltar à Terra, para guiar a humanidade, conduzindo-a às mesmas experiências contemplativas do Amor. Nos últimos dois anos de vida, Teresa do Menino Jesus rezou a Jesus para que realizasse o seu último sonho de morrer de amor. Neste Amor unificado pelo “único desejo de amar até morrer de amor ”é deixar-se amar e do amar de Jesus, transmite-nos pelo missionário Bellière que: “(…) estando às portas da eternidade, (…) não morro, entro na vida e tudo o que não posso dizer-vos neste mundo vo-lo farei compreender do alto dos Céus…”.
Teresa do Menino Jesus morreu, melhor, foi “morta” pelo Amor de Deus: “Os pequeninos serão julgados com extrema doçura. E é possível permanecer pequeno, mesmo nos cargos mais temíveis, mesmo vivendo por muito tempo”. Quando o Amor lhe retira o alento, ela já mal pode respirar o ar da terra, de “mão estendida para mim, pousando-a em seguida sobre o coração, para me dar a entender que eu estava aí, no seu coração.
Por Teresa de Lisieux é-nos comunicado no Espírito de oração a centralidade do Amor. Na vida e na mensagem da sua vida, através do Amor, tornamo-nos filhos. Teresa do Menino Jesus “nunca deu a Deus senão amor”, pois para ela “o único necessário na vida é amar Jesus com toda a força do nosso coração e salvar-lhe almas para que Ele seja amado”, para que outros sejam atraídos ao Amor.
Através de Teresa de Lisieux “a Igreja inteira reencontrou toda a simplicidade e toda a frescura deste grito – Abbá! Pai! – que tem a sua origem e a sua fonte no Coração do próprio Cristo”, que nos une ao Seu Amor. Teresa do Menino Jesus contemplou e reconheceu Jesus na “beleza do abandono de uma alma nas mãos de Deus”. Ela é testemunha e mostra-nos o nosso caminho no mundo para que “corramos juntos”, por isso não somos órfãos.
Frei Marco Caldas OCD
